Todos os trimestres, a mesma rotina repete-se nos departamentos de Relações com Investidores das empresas cotadas portuguesas. O CFO precisa de um guião. O CEO quer pontos de discussão. Os analistas enviaram 25 perguntas, e a equipa de RI tem três semanas para reunir tudo a partir de fontes de dados dispersas, transcrições anteriores e apresentações por terminar.

Uma empresa cotada típica na Euronext Lisbon investe 120 a 200 horas-pessoa por trimestre na preparação de resultados. CFO, CEO, responsável de RI e dois ou três colaboradores trabalham em material que, em 70 por cento, tem a mesma estrutura trimestre após trimestre.

A IA não substitui esta equipa. A IA trata dos 70 por cento repetitivos para que a equipa se possa concentrar nos 30 por cento que realmente exigem experiência e critério: a mensagem estratégica, o enquadramento dos riscos e a antecipação das perguntas dos analistas.

120-200
Horas-pessoa por trimestre na preparação de resultados
NIRI Annual Survey, 2024
60%
Do trabalho de preparação é repetitivo entre trimestres
McKinsey Finance Practice, 2025
3-5
Executivos envolvidos em cada trimestre
IR Magazine Survey, 2025

1. O custo real da preparação manual de resultados

O cálculo começa pelos custos de pessoal. Uma empresa cotada no PSI 20 ou no Euronext Growth paga ao CFO entre EUR 150.000 e EUR 400.000 por ano. O responsável de RI situa-se entre EUR 70.000 e EUR 140.000. Quando estas pessoas dedicam duas a três semanas por trimestre à preparação de resultados, os custos acumulam-se rapidamente.

Os custos diretos são fáceis de calcular: taxa horária de cada participante multiplicada pelas horas investidas. Numa empresa cotada portuguesa de média dimensão, isto representa tipicamente EUR 25.000 a EUR 60.000 por trimestre apenas em tempo de executivos.

Os custos indiretos pesam mais. Cada hora que o CFO dedica a polir o guião é uma hora a menos para alocação de capital, avaliação de operações de M&A ou decisões operativas. Cada hora que o CEO investe em ensaios de Q&A é tempo que falta na liderança estratégica da empresa.

Para onde vai realmente o tempo

A IA pode acelerar de forma mensurável quatro destas cinco áreas. A coordenação continua a exigir juízo humano. Mas mesmo aí, a IA consegue detetar inconsistências entre o guião e o material de apresentação, ou entre a comunicação atual e os compromissos assumidos em trimestres anteriores.

2. Cinco formas como a IA transforma a informação trimestral

📄 Geração do primeiro rascunho do guião
A IA analisa transcrições de trimestres anteriores, dados financeiros atuais e prioridades estratégicas para gerar um rascunho completo dos discursos do CEO e do CFO. O rascunho mantém os padrões de comunicação e o vocabulário natural de cada executivo. A equipa de RI revê e aperfeiçoa em vez de começar do zero.
Poupa 15-25 horas por trimestre
🎤 Executive Voice Profiling
Cada executivo tem um estilo de comunicação próprio. O CFO que utiliza percentagens precisas em vez de «aproximadamente» ou «na ordem de». O CEO que começa pelo contexto estratégico antes de entrar nos números. A IA aprende estes padrões a partir de transcrições históricas e assegura que cada rascunho soe como a pessoa que o vai apresentar. Não como um texto corporativo genérico.
Reduz as rondas de correção em 80%
Previsão de perguntas de analistas
Mediante a análise de 8 a 12 trimestres de transcrições de Q&A, estimativas de consenso atuais, relatórios de analistas publicados e tendências setoriais, a IA prevê as 15 a 20 perguntas mais prováveis para o earnings call. Cada previsão inclui o analista mais provável, os seus temas habituais e um enquadramento de resposta sugerido.
80-90% de acerto nas 10 perguntas principais
📊 Verificação de consistência narrativa
A IA confronta a comunicação do trimestre atual com a guidance anterior, transcrições prévias e comunicados de imprensa. Deteta quando a narrativa atual contradiz algo que o CEO disse há seis meses, ou quando a explicação de receitas não é coerente com a desagregação por segmentos. Exatamente o tipo de inconsistências que os analistas identificam.
Deteta 3-5 lacunas narrativas por trimestre
📈 Inteligência competitiva e de comparáveis
Quando um concorrente apresenta resultados antes de si, a IA extrai em horas as mensagens-chave, alterações de guidance e reações dos analistas. A sua equipa de RI recebe um briefing sobre o que o mercado já sabe antes da sua própria apresentação. Sem corridas de última hora quando os analistas levantam um tema que um comparável acabou de abordar.
Briefing competitivo em 2 horas em vez de 2 dias

3. Executive Voice Profiling: Porque é decisivo

Este é o aspeto que a maioria das equipas de RI subestima. Um analista que segue a sua empresa há cinco anos reconhece em duas frases se o guião foi escrito pelo CFO ou por um membro da equipa de RI. As formulações, o ritmo, o nível de detalhe, a forma de apresentar os números. Estes padrões são consistentes e reconhecíveis.

O Voice Profiling baseado em IA funciona analisando 8 a 12 trimestres de transcrições de earnings calls. São extraídos:

O resultado é um perfil de voz que funciona como guia de estilo para cada rascunho. Quando a IA gera um guião para o CFO, utiliza o vocabulário, a estrutura e o tom desse CFO. O primeiro rascunho lê-se como algo que o executivo teria escrito. Não como algo que necessita de ser reescrito por completo.

Porque é que isto importa para o negócio? Porque a alternativa são três ou quatro rondas de revisão em que o executivo risca as formulações da equipa de RI e substitui pelas suas. Cada ronda custa um dia. O Voice Profiling comprime este ciclo de uma semana para uma única tarde.

4. Prever as perguntas dos analistas antes de serem formuladas

A preparação de Q&A é a parte mais intensiva em tempo da preparação de resultados, e a área onde a IA oferece a vantagem mais clara. Eis como funciona a previsão na prática.

Fontes de dados para a previsão

  1. Transcrições históricas de Q&A (8-12 trimestres): O que cada analista perguntou em trimestres anteriores. Que temas persegue de forma recorrente. O que perguntou aos concorrentes.
  2. Dados do trimestre atual: Cada métrica que se desvia do consenso ou da guidance torna-se tema provável de pergunta. Compressão de margens, fragilidade de um segmento, variações de cash flow.
  3. Relatórios de analistas recentes: As notas de research publicadas habitualmente sinalizam antes do call quais os temas que preocupam os analistas.
  4. Tendências setoriais e macroeconómicas: Variações de taxas de juro, alterações regulatórias, perturbações nas cadeias de abastecimento. Tudo o que afeta o setor gera perguntas. No mercado português atualmente: custos energéticos, exposição a Angola e Moçambique, transição energética, concessões e regulação de utilities.
  5. Earnings calls de concorrentes: Se uma empresa comparável foi questionada sobre pressão nos preços, as mesmas perguntas chegarão ao seu call.

Precisão da previsão

Com base em backtesting contra sessões de Q&A reais, as listas de previsão geradas por IA acertam tipicamente 8 a 9 das 10 perguntas mais frequentes. As 1 ou 2 restantes são normalmente muito específicas, frequentemente baseadas numa notícia recente ou num dado não publicado.

O valor não está apenas em prever a pergunta, mas na resposta preparada. Para cada pergunta prevista, a IA gera:

5. IA vs. processo tradicional: Comparação direta

Dimensão Processo tradicional Processo com IA
Primeiro rascunho do guião A equipa de RI redige do zero, 3-5 dias A IA gera a partir de Voice Profile + dados, 2-4 horas
Rondas de revisão 3-4 rondas em 1-2 semanas 1-2 rondas em 2-3 dias
Preparação de Q&A A equipa recolhe perguntas, 40-60 horas A IA prevê perguntas + respostas sugeridas, 10-15 h. de revisão
Monitorização competitiva Leitura manual de transcrições, 1-2 dias por concorrente Extração automática, 2 horas por concorrente
Verificação de consistência Revisão jurídica apenas do guião atual A IA cruza 8+ trimestres de comunicação
Tempo total de executivos 60-80 horas por trimestre (CEO + CFO) 20-30 horas por trimestre
Tempo total da equipa de RI 150-200 horas por trimestre 60-80 horas por trimestre

6. Roteiro de implementação para equipas de RI

Fase 1: Linha de base de voz (Semanas 1-2)

Recolher transcrições dos últimos 8 a 12 trimestres de resultados. Criar Voice Profiles para o CEO e o CFO. Identificar vocabulário central, padrões de estrutura e marcadores de tom. Esta é a base sobre a qual tudo o resto se constrói.

Fase 2: Piloto de previsão de Q&A (Trimestre N)

Para a próxima apresentação de resultados, executar a previsão de IA em paralelo com o processo existente. Comparar as perguntas previstas com as efetivamente formuladas. Medir a precisão. Utilizar os resultados para refinar o modelo.

Fase 3: Geração de guiões (Trimestre N+1)

Com Voice Profiles validados e uma previsão comprovada, começar a utilizar rascunhos gerados por IA para os discursos preparados. A equipa de RI passa da redação à edição. Os executivos reveem um rascunho que já soa como eles, em vez de reescrever algo completamente.

Fase 4: Integração completa (Trimestre N+2)

Integrar inteligência competitiva, verificações automáticas de consistência e análise histórica de Q&A num único pacote de briefing pré-call. A equipa de RI recebe um rascunho completo de todos os materiais de apresentação nas 48 horas seguintes ao fecho trimestral.

Prazo de implementação: A maioria das equipas de RI vê poupanças de tempo mensuráveis num trimestre. A integração completa requer dois a três trimestres. A chave é começar pelo Voice Profiling, porque tudo o resto depende de acertar o tom do executivo desde o primeiro rascunho.

7. Requisitos específicos do mercado português

As empresas cotadas em Portugal enfrentam uma complexidade adicional que torna especialmente valiosa a preparação assistida por IA.

Comunicação bilingue

A maioria das empresas do PSI 20 apresenta resultados em inglês para o mercado internacional, mas a documentação regulatória e as comunicações à CMVM são em português. O earnings call é tipicamente em inglês, os materiais do conselho de administração em português. Os comunicados de imprensa publicam-se em ambos os idiomas em simultâneo. A IA assegura que ambas as versões sejam coerentes em conteúdo e estilo. A Galp, a Jerónimo Martins e a EDP, por exemplo, mantêm equipas dedicadas à coordenação linguística que beneficiariam significativamente desta automação.

SNC, IFRS e duplo reporte

As empresas portuguesas apresentam contas consolidadas segundo as IFRS (International Financial Reporting Standards) e contas individuais segundo o SNC (Sistema de Normalização Contabilística). As referências a rubricas como «resultado operacional,» ajustamentos por IFRS 16 locações e a informação por segmentos segundo a IFRS 8 exigem tratamento específico. A Sonae, com os seus múltiplos segmentos de negócio (retalho, telecomunicações, centros comerciais), ilustra bem a complexidade desta conciliação. Os modelos genéricos treinados com dados norte-americanos não tratam estas particularidades.

CMVM e regulação do mercado

A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) aplica o Regulamento de Abuso de Mercado (MAR) da UE e o Código dos Valores Mobiliários. As obrigações de comunicação de informação privilegiada, listas de insiders e o cumprimento das regras de divulgação da Euronext Lisbon exigem uma revisão cuidadosa de cada rascunho. A IA pode identificar potenciais riscos de conformidade antes da revisão jurídica, reduzindo as rondas de coordenação entre a equipa de RI, o departamento jurídico e o compliance officer.

Ecossistema de analistas em Portugal

As empresas do PSI 20 contam tipicamente com 5 a 15 analistas de cobertura. Entre as casas de análise especializadas no mercado português destacam-se CaixaBI, BPI (integrado no CaixaBank BPI), JB Capital Markets Portugal, Mediobanca e as equipas ibéricas de grandes bancos internacionais como o Morgan Stanley e o Goldman Sachs. Menos analistas significa padrões de perguntas mais previsíveis. A IA pode construir perfis mais profundos de cada analista e acompanhar os seus temas de interesse ao longo dos anos. Num mercado pequeno como o português, esta vantagem é particularmente pronunciada.

Assembleia Geral de Acionistas

As sociedades cotadas portuguesas celebram uma Assembleia Geral de Acionistas anual com deliberações juridicamente vinculativas. As perguntas dos acionistas na Assembleia sobrepõem-se frequentemente às perguntas dos analistas, mas requerem um tom diferente e maior formalidade. Empresas como os CTT e a NOS, com bases acionistas diversificadas que incluem investidores institucionais e pequenos acionistas, beneficiam especialmente da capacidade da IA para derivar material de Q&A para ambos os formatos a partir dos mesmos dados base, ajustando o nível de formalidade conforme apropriado.

Reporte de sustentabilidade: ESRS e CSRD

A Diretiva de Reporte de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) e as Normas Europeias de Reporte de Sustentabilidade (ESRS) impõem novas obrigações de divulgação às empresas cotadas portuguesas a partir de 2024. A EDP, líder europeia em energias renováveis, e a Galp, em plena transição energética, enfrentam escrutínio particularmente intenso dos analistas sobre métricas ESG, objetivos de descarbonização e alinhamento com a taxonomia europeia. A IA pode integrar os dados de sustentabilidade no pacote de preparação de resultados, garantindo coerência entre o relatório de sustentabilidade e a narrativa financeira do earnings call.

Exposição a mercados lusófonos

Várias empresas do PSI 20 mantêm presença significativa em mercados lusófonos, nomeadamente Brasil, Angola e Moçambique. A Jerónimo Martins tem uma operação de grande escala na Polónia e na Colômbia, mas também presença relevante nestes mercados. O risco cambial, a volatilidade política e as especificidades regulatórias de cada país geram perguntas recorrentes dos analistas. A IA pode monitorizar a evolução macroeconómica destes mercados e antecipar as perguntas relacionadas, uma área que consome tempo de preparação considerável.

Dimensão do mercado e atenção dos investidores

O mercado português é relativamente pequeno em comparação com outros mercados europeus. As empresas do PSI 20 competem pela atenção de investidores internacionais com pares de maior dimensão na Europa. Isto torna a qualidade da preparação de resultados especialmente crítica. Um earnings call bem preparado, com narrativa clara e respostas consistentes, pode fazer a diferença na perceção de investidores que acompanham dezenas de empresas em simultâneo. A IA ajuda a garantir que cada apresentação de resultados atinge o padrão de qualidade das maiores empresas europeias, mesmo com equipas de RI mais pequenas.

8. Riscos e limitações

A preparação de resultados assistida por IA não está isenta de riscos. A honestidade sobre as limitações é condição prévia para tomar boas decisões de implementação.

Veja como são os relatórios trimestrais preparados com IA

Elaboramos rascunhos completos de relatórios trimestrais para empresas cotadas europeias. Guiões com Voice Profiling, previsões de Q&A e relatórios narrativos completos, entregues em 48 horas após o fecho trimestral.

Ver relatórios de amostra

Fontes

  1. National Investor Relations Institute (NIRI), "Corporate IR Budgets and Staffing Report," 2024.
  2. McKinsey & Company, "The CFO's Role in an AI-First Finance Function," McKinsey Finance Practice, 2025.
  3. IR Magazine, "Global IR Survey 2025: Technology Adoption in Investor Relations."
  4. Quartr, "The State of Earnings Calls 2025," Annual Report on Quarterly Reporting Trends.
  5. ESMA, "MAR Guidelines on Delayed Disclosure," European Securities and Markets Authority, 2024.
  6. CMVM, "Código dos Valores Mobiliários e regulamentos complementares," Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, 2024.
  7. Deloitte, "AI in Corporate Finance: From Experimentation to Value," 2025.
  8. Bloomberg Intelligence, "Earnings Call Analysis: What Analysts Actually Ask," 2025.
  9. Euronext Lisbon, "Requisitos de admissão e obrigações de informação contínua," 2025.
  10. Comissão Europeia, "Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) Implementation Guidelines," 2024.